29 de Maio de 2010

Escritora Maria Alberta Menéres esteve entre nós, Pena Jovem Março 2000

 

“Eu tive um aluno que dizia que tinha um lápis mágico, que o lápis dele escrevia coisas que nem ele sabia que sabia. Eu acho um espanto e, realmente, isto é o princípio da escrita.” - referiu a escritora Maria Alberta Menéres em entrevista ao PENA JOVEM

 

Dentro das actividades da disciplina de Língua Portuguesa, os alunos do 5º, 6º e 7º anos tiveram o privilégio de ver e dialogar com a escritora Maria Alberta Menéres, no meio de uns amigos nossos que dão pelo nome de livros (Biblioteca), no dia 23 de Março.

 

A escritora revelou-se sempre muito simpática e disponível para satisfazer a curiosidade dos alunos.

 

No final da jornada, ainda teve estofo para falar, falar ao nosso jornal.

 

P.J. - Desde sempre quis ser escritora?

 

Escritora - Desde sempre, praticamente desde os nove anos que foi quando comecei a ir à escola. Aos 9 anos, apaixonei-me por um dicionário, achei que era um máximo e que, se soubesse aquelas palavras todas e o que queriam dizer, podia ser escritora.

 

Claro que era uma ideia de miúda, não é? Claro que não é bem assim e que não é preciso saber tantas palavras como estão no dicionário.

 

Mas para mim foi um encantamento saber que eu podia escrever o que eu quisesse e que as palavras da Língua Portuguesa eram muito bonitas.

 

P.J. - Como caracteriza o seu modo de escrever?

 

Escritora - O meu modo de escrever é assim: eu procuro sempre pôr a maior qualidade possível no que escrevo, procuro jogar das maneiras mais banais, mais vulgares de dizer as coisas e então invento-as. Por isso, por exemplo, se eu falo do ouriço-cacheiro, penso como é que o ouriço-cacheiro falará. Isto em relação à minha escrita para crianças, mas eu não escrevo só para crianças.

 

Quando escrevo para mim, normalmente poesia ou ensaio (romances nunca escrevi, mas também tenho essa ideia, mas, enfim, claro está que é outra maneira de escrever), procuro escrever sempre com sentimento, mas principalmente com inteligência. Primeiro a inteligência e depois o sentimento, porque senão saem coisas muito banais e muito pirosas. Mas, se a gente escrever com inteligência e sentimento, as coisas podem revelar uma outra maneira de ver o mundo, que é isso que eu quero sempre: ver o outro lado das coisas que não vemos todos os dias.

 

P.J. - Porque se dedicou à escrita de livros para crianças?

 

Escritora - Porque descobri que era difícil, engraçado e que ao fim ao cabo eu acabava por entender a minha própria infância. Não pensando na minha, mas pensando na infância dos outros e comparando um pouco com a minha, sem comparar; isto é um bocado esquisito, porque há coisas que são comuns a todas as infâncias. Por exemplo, a descoberta dos animais do campo, dos animais selvagens, a conversa que a gente faz com o dia, com a noite, com as coisas que vai descobrindo e vendo todos os dias, mesmo as mais estranhas e as mais pequeninas.

 

O que é falar com uma coruja de noite, uma coruja que não nos vê? A gente pode falar com elas; por exemplo, a última vez que eu falei com uma coruja, no fim acabei assim: olha, agora já são horas de ir dormir, viras o rabinho para cá, abres as asas e vais embora. E a coruja virou o rabinho para mim, abriu as asas e foi-se embora. Há uma conversa que a gente não entende, mas a gente atira e às vezes pega.

 

P.J. - Para além de escritora infantil, é também poetisa. Quando escreve poesia, normalmente em que se inspira?

 

Escritora - Na poesia, inspiro-me em mim própria. Quando eu escrevo, eu não sei o que vou escrever, mas a minha mão escreve e de repente eu digo: ah! Isto estava certo, era isto mesmo que eu queria dizer, mas não conseguia dizer! Isto só se pode saber quando se começa a escrever.

 

Eu tinha um aluno que dizia que tinha um lápis mágico, que o lápis dele escrevia coisas que nem ele sabia que sabia. Eu acho um espanto e, realmente, isto é o princípio da escrita. A gente começa e, de repente, nem sabia que sabia.

 

Agora, quem não começa não tem esta maravilha de saber o que é.

 

P.J. - Tem trabalhado com Natércia Rocha e Carlos Correia na colecção juvenil “Mistério”. Prefere escrever sozinha ou colectivamente?

 

Escritora - Eu gosto muito mais de escrever sozinha. Mas, foi um desafio muito engraçado que me lançaram e que eu até nem acompanhei muito, porque eles têm muito mais jeito. O Carlos tem mais jeito para romancear, para fazer romances; a Natércia tem mais jeito para ver onde está a pista certa e a pista falsa e eu tenho mais jeito assim para as loucuras, as loucuras da escrita, de vez em quando lá vai uma… Mas eu não tenho grande jeito para escrever com outras pessoas.

 

A pessoa com quem eu gosto mais de escrever e que tem mais a ver comigo é o António Torrado, porque temos vários livros em conjunto e é sempre o "mata, esfola".

 

Um diz “mata” e o outro diz “esfola” e é muito engraçado e tão divertido que vocês não fazem ideia.

 

Esta dos livros "Mistério" é mais complicado, dá mais trabalho, mas eu gosto de fazer, porque gosto deles como amigos, de resto não seria nunca sozinha que eu escreveria, nunca me atreveria a fazer "Mistério".

 

P.J. - De todos os seus livros, qual foi o que a marcou mais?

 

Escritora - Tenho vários. A minha escrita para adultos marca-me sempre muito, mas isso é outra história.

 

Em relação aos mais novos, "O POETA FAZ-SE AOS DEZ ANOS" foi um livro que eu escrevi com os meus alunos, foi uma coisa muito engraçada na minha experiência como professora. Gosto muito de "HISTÓRIAS DO TEMPO VAI, TEMPO VEM", que está esgotado, mas vai agora sair na ASA; gosto de "O CORAÇÃO DO TREVO”, gosto muito de um que é "UMA PALMADA NA TESTA”.

 

P.J. - Para além de escritora, é professora, tradutora e colabora em jornais e revistas literárias. Como consegue conciliar todas estas actividades?

 

Escritora - É a pouco e pouco. É cada coisa no seu dia. Em primeiro, fui professora, agora já não sou. Agora sou mais escritora. Tradutora já foi o tempo, agora já não tenho paciência para fazer traduções; só se me aparecer assim uma muito interessante, ainda farei, mas já não me apetece.

 

Apetece-me mais aproveitar o tempo em coisas que eu sinta mais. Neste momento tenho oito livros, mais ou menos pensados e agora tenho que me dedicar a eles. E eu nem sei por qual deles vou começar, aquele que me apetecer mais no momento. Mas, prefiro fazer livros meus.

 

P.J. - Para si, qual é o seu escritor preferido?

 

Escritora - Tenho muitos. Vou dizer um de antigamente: o Camões, adoro o Luís de Camões, mas o Camões não é “Os Lusíadas”, eu gosto é dos sonetos, da lírica de Camões.

 

Depois, um bocadinho mais para cá, gosto do Aquilino Ribeiro, acho-o o máximo, principalmente os livros dele para crianças e não só, os outros também. E agora, ultimamente, ando muito apaixonada pela escrita de Mia Couto. Ainda é novo, penso que ainda não tem 40 anos, e é fantástico; a escrita dele é do mais mágico e do mais interessante que há; é um escritor muito jovem e é moçambicano, escreve um Português impecável, é uma coisa maravilhosa. Vocês leiam, que vão ficar fascinados. E, mete-me raiva, porque ele escreve coisas que gostava de ter sido eu a escrever. Isto é logo um sinal: Ena! Como é que ele se lembrou de escrever isto e eu não?

 

P.J. - O que é que achou da nossa escola e dos nossos alunos?

 

Escritora - Adorei vir cá, gostei imenso. Com o 7' ano que estive foi óptimo, estavam extremamente atentos e interessados e muito curiosos em saber as coisas, muito sensíveis. Adorei. Dos primeiros também gostei muito, mas os segundos, os do 6' ano, como eram muitos, não conseguimos ter uma comunicação melhor, porque eles estavam muito distraídos, muito reguilas e estavam sempre a conversar uns com os outros; eram de mais, sabes como é? Estavam a querer fazer despique uns com os outros e eu sei como é isso, porque eu também era igual, de maneira que eu percebo as coisas. E assim sendo, não resultou tão bem.

 

Agora, com os primeiros, gostei imenso e até me deram imensas ideias.

 

P.J. - Qual a mensagem que quer deixar aos nossos alunos?

 

Escritora - Que leiam o mais possível e leiam coisas diferentes. Vejam o que cada um gosta mais de ler e leiam isso, escolham livros próprios para a vossa idade; depois, atrevam-se também a escrever, porque, quando a gente escreve, é como dizia aquele meu aluno: "O meu lápis é mágico, ele escreve coisas que eu nem sabia que sabia." E, se começarem a escrever, vocês perceberão porque é que ele diz isto. Ele tinha toda a razão, isto é o princípio da escrita. Quem começa a escrever é que descobre o que vai descobrindo, que às vezes nem sabe o que tem para dizer. Só começando a escrever, é que se consegue.

 

De maneira que gostem muito de ler, de escrever e que sejam muito felizes.

publicado por Maria Alberta Menéres às 04:05
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