06 de Maio de 2010

Maria Alberta Menéres Espreitou Três Vezes?

No Octogésimo Aniversário da Autora

José António Gomes e Ana Vasconcelos

[Núcleo de Estudos Literários e Artísticos da Escola Superior de Educação do Porto]

 

Breve roteiro bibliográfico:

 

Maria Alberta Menéres nasceu em 1930, em Vila Nova de Gaia. Nesta cidade e no Ribatejo decorreu a sua infância, em contacto com a Natureza e com esses pequenos-grandes «mistérios» da vida que não passam despercebidos a um olhar curioso, empenhado na descoberta gradual do mundo e da sua potencial dimensão poética – como, no fundo, era, e é, o olhar de Maria Alberta Menéres. Tais vivências viriam a ser recriadas na sua escrita para crianças (leiam-se, por exemplo, «A visita à madrinha», na colectânea Contos da Cidade das Pontes ou «O Ouriço-Cacheiro Espreitou Três Vezes»).

 

Licenciada em Ciências Historico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, foi professora do Ensino Técnico, Preparatório e Secundário, leccionando Língua Portuguesa e História entre 1965 e 1973. Nessa experiência e na colaboração jornalística dirigida ao público juvenil (a secção «Iniciação Literária», do suplemento do O Doutor Sabichão Diário Popular, entre 1972 e 1973) radicam os textos reunidos no seu famoso livro O Poeta Faz-se aos Dez Anos editado numa altura em que o principal investimento da autora, em termos de criação, incidia na escrita poética para adultos, com diversos títulos publicados entre as décadas de 50 e 70 do século XX.

 

Convém lembrar aqui que, entre meados dos anos sessenta e o 25 de Abril de 1974, se sente um sopro de renovação na literatura portuguesa para a infância, muito marcada, até esse período, por uma linha de ideologização condicionada pela política educativa e cultural da ditadura salazarista e marcelista. Os temas sociais e a própria diversidade social dos heróis infantis, as questões da liberda- de, da guerra e da paz, a crítica a uma sociedade classista e injusta, um novo humor e uma apurada atenção à linguagem são alguns dos traços que é possível identificar nesta nova escrita. Recordemos os protagonistas dessa renovação, alguns com obra antes publicada noutros domínios da criação literária, como Alice Gomes, Papiniano Carlos, Mário Castrim, Maria Rosa Colaço, Madalena Gomes, Isabel da Nóbrega, Norberto Ávila, Luísa Dacosta, Luísa Ducla Soares, António Torrado e a própria Maria Alberta Menéres, que se estreia na criação literária para a infância com um livro de poesia, Conversas com Versos (1968),  publicando, um ano depois, Figuras Figuronas (1969).

 

Na esteira de autores mais velhos ou com obras mais inovadoras, editadas desde as décadas de 40 e 50 – casos de Sidónio Muralha, Ilse Losa, Matilde Rosa Araújo, Sophia de Mello Breyner Andresen –, novas tendências se desenham assim. Oriundos dos círculos poéticos universitários dos anos sessenta – muito atentos às artes poéticas e ao suporte verbal do lirismo –, Maria Alberta, Torrado e Luísa Ducla Soares trazem à poesia e ao conto para crianças um fôlego renovado. A primeira colhe, nas fórmulas encantatórias, nas «rimas infantis» tradicionais e no jogo verbal infantil, os modelos textuais que depois reinventa em poemas de assinalável originalidade e efeito cómico, produzindo também, em prosa poética, uma conseguida adaptação da Odisseia que tem merecido sucessivas reedições e conquistado diferentes gerações de leitores ao longo das últimas três décadas: Ulisses (1972).

 

A partir de 1973, e colaborando com Câmaras Municipais, Escolas de diferentes níveis de ensino e Escolas Superiores de Educação em todo o país, a autora de Figuras Figuronas dinamizou encontros com alunos, com professores e mesmo entre professores e alunos, em torno de temas como o ensino e a poesia, a criatividade no ensino e outros. A própria escrita de Maria Alberta Menéres tem sido também, ao longo dos anos, pretexto para numerosas sessões com a sua presença, realizadas em escolas de todo o país.

 

Pertenceu à Comissão de Classificação de Espectáculos Cinematográficos (Ministério da Comunicação Social), de 1974 a 1982, desempenhando aí diferentes funções, e foi Assessora do Provedor de Justiça, como responsável pela linha «Recados das Crianças», de 1993 a 1998. Desenvolveu intensa actividade como autora, tradutora e produtora de programas televisivos para crianças e jovens, tendo sido, de 1975 a 1986, Directora do Departamento de Programas Infantis e Juvenis da Radiotelevisão Portuguesa. Durante seis anos consecutivos, foi autora das letras das canções da campanha «O Pirilampo Mágico», em cooperação com a Antena 1, e compôs várias letras de canções para discos de músicos portugueses. Integrou a Direcção da Associação Portuguesa de Escritores de 1973 a 1975 e foi membro de júris de prémios literários.

 

A sua colaboração literária reparte-se por publicações periódicas como Diário de Notícias, Diário de Lisboa, Diário Popular, A Capital, Expresso, Jornal de Notícias, O Primeiro de Janeiro, Jornal do Fundão, Sibila, Távola Redonda, Ocidente, Contravento, Cadernos do Meio-Dia, Horizonte, Estudos de Castelo Branco, Gazeta Literária, Hidra-I, Colóquio-Letras, JL – Jornal de Letras, Artes e Ideias, Palavras entre outras, tendo sido directora da revista Pais, entre 1990 e 1993, e directora da revista Super Bebés, desde 1997.

 

Enquanto autora de poesia e de ficção narrativa, Maria Alberta Menéres está representada em diversas antologias literárias portuguesas, tais como: Antologia de Mulheres Poetas Portuguesas, (Delfos, 1962), Vinte Anos da colecção Círculo de Poesia (Moraes Editores, 1967),  Antologia do Conto Fantástico Português (Afrodite, 1967), Líricas Portuguesas: 4.ª série (Portugália Editora, 1969), 800 Anos de Poesia Portuguesa (Círculo de Leitores, 1973), O Fantástico no Feminino (Rolim Editores), e noutras, ainda, editadas no estrangeiro (Reino Unido, Itália, Bélgica, Estados Unidos…).

 

No campo da literatura para crianças e jovens, refiram-se, entre outras, a Antologia Diferente – De que São Feitos os Sonhos (Areal Editores 1986), coordenada por Luísa Ducla Soares, e as obras colectivas Conto Estrelas em Ti: Dezassete Poetas Escrevem para a Infância (Campo das Letras, 2000), Contos da Cidade das Pontes (Ambar, 2001), ambas coordenadas por José António Gomes, Histórias da Árvore dos Sonhos (Parque Biológico de Gaia / Ilha Mágica, 2002) coordenada por José Vaz, Água: 4 Contos (Crédito Agrícola e Fundação Luso, s.d.)

 

De salientar também que Maria Alberta Menéres foi co-organizadora (com E. M. de Melo e Castro) da Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, nas suas três edições, e da Antologia da Poesia Portuguesa 1940-1977 (Moraes Editores), sendo ainda responsável pela versão para português actual do texto integral da Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto (Edições Afrodite, 1971), de que se editaram volumes especiais, com textos inéditos de ensaístas e escritores portugueses, no quadro do Ciclo Comemorativo dos Descobrimentos Portugueses.

 

É de mencionar ainda o seu trabalho como tradutora e/ou adaptadora de numerosas obras para a infância, e não só, das quais se destacam as fábulas de Jean de La Fontaine e os contos de Charles Perrault (Fábulas de La Fontaine Porto: ASA, 1999; Contos de Perrault Porto: ASA, 2001). Outra dimensão da sua actividade prende-se com a co-autoria de diversos manuais escolares e de outros livros didácticos, alguns dos quais (designadamente para o ensino da leitura e da escrita no 1º . ciclo do Ensino Básico) se distinguem pelo seu carácter inovador e pela aposta na educação literária desde as primeiras idades.

 

Da discografia da autora consta um disco de poesia (Philips 431993, colec-ção «Poesia Portuguesa», com prefácio de António Ramos Rosa); um disco de canções para crianças (com poemas seus e música de Jorge Constante Pereira) cantadas e tocadas por alunos da Ludus (edição da Ludus) e ainda quatro canções no disco Cantigas de Ida e Volta (Orfeu Stereo Stat 032, edição de Arnaldo Trindade).

 

Ao longo da sua carreira literária, a obra de Maria Alberta Menéres – amplamente representada nas listas do Plano Nacional de Leitura – tem sido objecto de diversas distinções, das quais se destacam:

 

- o Prémio Internacional de Poesia Giacomo Leopardi, em 1961, pelo livro de poesia ; Água-Memória

- o Prémio «O Ambiente na Literatura Infantil» da Secretaria de Estado do Ambiente por A Água que Bebemos, em 1981

- o Prémio «O Ambiente na Literatura Infantil» da Secretaria de Estado do Ambiente por O Sétimo Descarrilamento 1983 (em co-autoria com Carlos Correia)

- o Prémio de Teatro Infantil da Secretaria de Estado da Cultura por O Que É Que Aconteceu na Terra dos Procópios? em 1979

- o Prémio de Teatro Infantil da Secretaria de Estado da Cultura por O Tritão Centenário, em 1984

- o Grande Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças pelo conjunto da obra, em 1986

- uma Menção Honrosa do Prémio de Teatro Infantil da Secretaria de Estado da Cultura, pelo livro À Beira do Lago dos Encantos, publicado em 1988

– o Prémio «O Ambiente na Literatura Infantil» da Secretaria de Estado do Ambiente por No Coração do Trevo, em 1990.

 

Outros livros da autora foram distinguidos pelo trabalho dos ilustradores, como aconteceu com O Ouriço-Cacheiro Espreitou Três Vezes, Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (Ilustração), atribuído, em 1982, a António Modesto; ou O Livro das Sete Cores, Prémio Calouste Gulbenkian de Literatura para Crianças (Ilustração), atribuído, em 1984, a Jorge Martins. Além destes ilustradores premiados, contam-se, entre os muitos que com a autora têm estabelecido parcerias frutuosas, nomes como os de Fernando Relvas, Cristina Malaquias, Artur Correia, João da Câmara Leme, Jorge Colombo, Connie Fischer, Fernanda Fragateiro, Rui Truta e Nikola Raspopovic.

 

Com uma obra ampla, diversa, de elevada qualidade e que tem conhecido múltiplas reedições, no essencial repartida pela literatura e pela banda desenhada para a infância ou para a juventude, pela poesia e pela narrativa para adultos, pelo texto ensaístico, pela antologia e pelos trabalhos didácticos, Maria Alberta Menéres ocupa assim um lugar relevante no panorama literário português, que importa reconhecer.

 

No domínio particular da escrita para a infância, cultivou múltiplos modos/ géneros: a poesia lírica ou narrativa, o conto, o texto para álbum, o romance juvenil, o texto dramático, a adaptação… Parafraseando, pois, um dos seus títulos mais conhecidos, é caso para dizer que Maria Alberta Menéres não se limitou a espreitar três vezes, mas sim muitíssimas, para o mundo da criação literária. E fê-lo de modo tão peculiar que a sua visão criadora nele se inscreveu de forma duradoura. Para bem de todos os leitores, miúdos ou graúdos, que se tornaram atentos seguidores desse olhar.

 

A actual editora da autora de Um Peixe no Ar celebra, em 2010, e bem, o Ano Maria Alberta Menéres, em homenagem à escritora que comemora este ano o seu 80º aniversário. Momento ideal, por isso, para assinalar aspectos de uma escrita que é um caso de indubitável presença do literário na narrativa, no texto dramático e na poesia para crianças e jovens. Momento ideal, também, para recordar a certos adultos (um número a crescer assustadoramente!) que a chamada literatura para a infância é muito mais do que imagens e design– pois (já tardava) parece ter-se invertido a intolerável desvalorização da ilustração verificada há décadas, em que o nome do ilustrador chegava a não figurar na capa nem na ficha técnica dos livros. Hoje, o que por vezes parece relegado para segundo plano é justamente a qualidade literária dos textos – o que, num país que continua a debater-se com a iliteracia, não surpreende. Caso para dizer: nem oito, nem oitenta.

 

Excerto da brochura 80 anos Maria Alberta Menéres, ASA

publicado por Maria Alberta Menéres às 00:38
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